terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

As Origens e a Singularidade do Povo Paulista


Hoje sabemos que a colonização de São Paulo leva um tempero diferente do restante da colonização da América Portuguesa pelo fato d'os paulistas adotarem a nova terra como nenhum outro povo fez. Criou-se uma língua própria, costumes únicos e um amor que se viu pouco nos outros lugares de colonização portuguesa. ¹ Mas o que levou esses europeus - portugueses, flamengos, franceses e outros ⁷ - a atravessarem um oceano e a adotar como lar definitivo um lugar tão inóspito e desconhecido como as florestas paulistas? A pesquisadora polonesa Anita Novinsky responde: a ânsia de liberdade, a sede duma terra livre e justa. ²

Para que se possa entender melhor, é preciso romper com aquilo que comumente é aprendido na escola. Os que vieram para São Paulo não vieram explorar para em seguida ir embora. Nossos ancestrais vieram fugidos de Portugal, atemorizados pela Inquisição. Os primeiros paulistas eram judeus praticantes ou cristãos-novos (judeus já cristãos, mas assombrados pelo fantasma do «sangue impuro»). O próprio Martim Afonso de Sousa não só era descendente do rei Afonso III de Portugal por linhagem bastarda, mas se acreditava ter sangue de cristão-novo advindo da sua avó paterna. Essa hipótese nunca foi confirmada, mas tal fama existia já entre seus contemporâneos. O que se sabe com segurança é que esse pioneiro de SP era amigo e protetor dos cristãos-novos. O pesquisador Marcelo Bogaciovas afirma que Sousa facilitou a vinda de conversos para a capitania de São Vicente, em grande escala, sabendo que as novas terras poderiam se converter em refúgio distante da metrópole, onde a Inquisição era mais presente. ³ Novinsky ainda postula que para esses cristãos-novos São Paulo se converteu na Terra Prometida. ¹

Durante o domínio espanhol, o receio em relação aos paulistas cristãos-novos era notório, constando na Real Cédula de 1602 o desprezo pelas gentes que «an entrado por el rio de la plata y otras partes con los navios de los negros y cristianos nuebos y gente poco segura en las cosas de nuestra santa fee Catholica». ⁸

[tradução: entraram pelo Rio da Prata e outras regiões com os navios dos negros e cristãos-novos e gente pouco firme nas coisas da nossa Santa Fé Católica]

Até mesmo a maior figura da época colonial, a quem não só São Paulo deve muito, mas também o Brasil e Portugal, era judeu. O valente Raposo Tavares foi de São Paulo, ao sul e ao Amazonas, percorrendo e cruzando o trópico de Capricórnio e a linha do Equador em suas várias expedições. Esse homem era um explorador, um revolucionário, um político e um idealista e em seus feitos não teve quem o superasse na história do Novo Mundo, segundo o historiador português Jaime Cortesão. ⁴ Nas palavras de Júlio Mesquita Filho, esse é o herói duma das mais famosas façanhas de que guarda memória a história da humanidade. E o motivo de seus feitos terem sido relegados ao esquecimento por séculos e ainda serem discriminados pelos historiadores? O antissemitismo e o antijudaísmo.

Os paulistas se acercam da liberdade desde tempos imemoráveis, seja do jeito que for. No começo de tudo, era defendendo a liberdade de cada homem resistir a uma religião imposta pela força. Os jesuítas das Missões estavam vinculados à feroz Inquisição de Lima, braço da Igreja de Roma que julgava e combatia toda ameaça e heresia à fé católica na parte sul dos domínios espanhóis, e serviam como seus comissários. Esses padres eram encarregados de perseguir e prender os Paulistas por seus «horrendos crimes», ou seja, o ódio e a violência dos Bandeirantes contra os jesuítas não era gratuito e não era por motivos econômicos, e sim por defesa. Eles representavam a Inquisição, órgão que feria a dignidade humana e a que os paulistas se opunham ferozmente. Enquanto São Paulo esteve sob o jugo da Espanha, os homens da Companhia de Jesus enviavam anualmente cartas a El Rey para contar sobre os crimes dos Bandeirantes, acusando-os de matarem súditos reais impiedosamente. Esses senhores criaram a uma «lenda negra» em torno de nós, Paulistas, baseada em falsas provas. Tal lenda paira até hoje sobre a nossa história.

E por que isso só se faz público agora? Porque os paulistas, assim como os portugueses, viviam a «cultura do segredo». Os que rompiam com isso eram os jesuítas ao nos denunciarem, que lembravam sempre que pudessem que os paulistas eram «judeus secretos» ou que «eram cristãos, mas agiam como judeus». Em carta ao rei Filipe IV de Espanha, Francisco Vasques Trujillo declarou que os paulistas eram «falsos cristãos».⁶ Já o Padre Antonio Ruiz de Montoya, dito maior inimigo dos judeus, dizia que os paulistas eram autênticos aliados de Satanás. Nas crônicas jesuíticas os Bandeirantes eram ainda chamados de corsários, piratas, bandidos, facínoras, bestas, feras. Ainda hoje historiadores sul-americanos compram essa fábula. Não podemos aceitar sem discussão as fontes jesuítas, pois eles manipulavam seus escritos de acordo com os fins que desejavam alcançar, dizem Basílio de Magalhães, Alfredo Ellis Junior, Júlio de Mesquita Filho e Jaime Cortesão. Quem ensinava os índios a odiarem os bandeirantes eram os jesuítas. A iconografia das missões mostrava Satanás como Bandeirante, um homem barbudo, de tipo paulista, agitando as asas. ⁴ Mas, hoje, diz Novinsky, documentos provam que os jesuítas usavam os índios no trabalho braçal e que havia muitos deles que queriam abandonar os domínios da Companhia de Jesus para virem embora viver com os Bandeirantes. ² Tudo isso se fez público com a abertura do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, onde estão os documentos de toda a história do Império Português.



Extensão máxima da Capitania de São Paulo (1707)

A disputa dos Paulistas com os jesuítas carregava a vontade de um mundo livre. Não aceitávamos nem as palavras nem as leis de quem repetia que tínhamos aliança com o demônio. E a história não para por aí. Os Paulistas tínhamos uma vontade de autodeterminação latente que vez ou outra se manifestava. Em 1639, a Inquisição de Lima ordenou a detenção de Raposo Tavares e enviou um comissário para buscá-lo. O mensageiro do Santo Ofício foi morto pelos paulistas. ⁵

Não se pode pensar que os jesuítas defendiam a liberdade dos índios por serem a voz dos direitos humanos. No artigo «A Conspiração do Silêncio: Uma História Desconhecida sobre os Bandeirantes Judeus no Brasil», a polonesa Anita Novinsky escreve:

«São falsas também as alegações de que os Bandeirantes eram bandoleiros e impiedosos, pois sua generosidade e capacidade de sacrifício contradizem essas falsas alegações.»

O português Jaime Cortesão repete incessantemente que os jesuítas forjaram os crimes dos Bandeirantes. O ódio aos paulistas era tão grande que o Bispo e o Inquisidor Mor de Lisboa foram contra a independência de Portugal, pois esta dificultaria o julgamento dos Paulistas pela Inquisição. ⁵

Os Paulistas reprovavam os dogmas exagerados da Santa Mãe Igreja e combatiam as superstições e o facciosismo dos homens da Companhia de Jesus. Porém, é importante esclarecer que a maioria dos Bandeirantes não era judaizante. Eles mantinham alguns costumes e a identidade judaica, mas sem prática religiosa. Eram como os judeus modernos, «judeus sem religião», diz Novinsky. Será difícil saber a dimensão dos costumes judaicos mantidos pelos Paulistas devido à cultura do segredo em que a sociedade vivia. O que sabemos é que sob o domínio dos reis portugueses, os habitantes da capitania de São Vicente, Santo Amaro e posteriormente São Paulo sentiam-se à vontade para judaizar, devido à distância da metrópole e ao grau de autonomia que lhes era dado, devido à falta de riquezas nessas terras. ⁷ Outro ponto importante é que nem todos os jesuítas pensavam da mesma maneira e agiam com o mesmo ódio. Muitos jesuítas portugueses fomentavam e participavam das Entradas dos Paulistas. Entre os castelhanos o apoio aos paulistas acontecia entre aqueles que também eram descendentes de cristãos-novos. ⁵

O Bandeirante diante da Cruz, em desenho de Belmonte

A diferença de São Paulo e das outras nações da América Portuguesa pode ser explicada pela nossa história e o que aqui foi exposto é de suma importância para o nosso entendimento. Embora as outras regiões do Império Português tivessem a presença do cristão-novo, essa visão marrana do mundo, tão manifesta nas Bandeiras, deu uma característica sui generis aos domínios paulistas. Na sociedade portuguesa havia duas mentalidades irreconciliáveis. Alguns cristãos-velhos voltaram-se para dentro, num conservantismo e falta de inovação que tanto prejudica algumas sociedades até os dias de hoje. Mantiveram sua mente nublada por preconceitos. Os convertidos voltaram-se para um mundo novo, para as renovações e construções de novos valores, para os avanços da Ciência, das Letras e da Medicina, isso por pura necessidade de sobrevivência. Alguns cristãos-velhos seguiram essa mentalidade também. E hoje, mesmo São Paulo sendo esse recanto cristão que é e tendo recebido imigrantes sem nenhuma ascendência judaica, essa mentalidade marrana permanece e age nas nossas vidas. O espírito singular das Bandeiras e dos primeiros paulistas fez São Paulo ser o que é. O nosso anelo por liberdade nos fez ÚNICOS e não podemos jamais perder as características que nos fazem tão PAULISTAS. E jamais devemos nos calar sobre os nossos feitos e aceitar calados os absurdos que dizem sobre nós. Jamais.

Por Lucas Pupile

Bibliografia:

¹ NOVINSKY, Anita. Os cristãos-novos no Brasil colonial: reflexões sobre a questão do marranismo, Tempo, vol. 6, núm. 11, 2001 (Acesse aqui: http://migre.me/vdlci)
² Raposo Tavares - Série Construtores do Brasil (Acesse aqui: http://migre.me/vdkX4
³ BOGACIOVAS, Marcelo Meira Amaral. Tribulações do povo de Israel na São Paulo Colonial, 2006 (Acesse aqui: http://migre.me/vdlhd)
⁴ CORTESÃO, Jaime. Raposo Tavares e a Formação Territorial do Brasil in Obras Completas, vol. 9, Portugália Editora, 1958.
⁵ NOVINSKY, Anita. A “Conspiração do Silêncio”: uma história desconhecida sobre os Bandeirantes Judeus no Brasil (Acesse aqui: http://migre.me/vdljh)
⁶ Anais do Museu Paulista, Imprensa Nacional, São Paulo, 1949. Volume XVIII.
⁷ FALBEL, Nachman. Sobre a presença dos cristãos-novos na Capitania de São Vicente e a formação da Etnia Paulista. REVISTA USP, São Paulo, n.41, p. 112-119, março/maio 1999 (Acesse aqui: http://migre.me/vdlkM)
⁸ LEWIN, Boleslao. El Judío en la Epoca Colonial, Buenos Aires, Ed. Colegio de Estudos Superiores, 1939 


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Lenda de Sumé


Representação artística de Sumé. Créditos: O Submundo.

Quando o jesuíta Manoel da Nóbrega esteve em Santos, em 1549, o foi relatado uma lenda indígena a respeito de Sumé. Descrito como um homem alto, branco, com longos cabelos e barbas grisalhos e que flutuava no ar, teria vindo dos céus, enviado por Tupã, onde chegou à então Enguaguassu para beber a água de uma fonte, localizada nas proximidades da esquina da Av. Bernadino de Campos com a Rua Floriano Peixoto.

Ele trazia um grande saco às costas. Chamou a gente da região e, jogando pelo chão um punhado de sementes que enchiam aquele saco, mostrou a todos que do chão brotavam plantas que logo produziam alimento e riqueza, fartura para a tribo, deixando-lhes alguns punhados delas para que as plantassem. Começou a ser visto com desconfiança pelos caciques locais, que o tentaram matar com flechadas em certa manhã; tentativa esta falha, visto que as flechas misteriosamente retornaram e mataram seus atiradores. Era também uma das habilidades do estrangeiro: tirar flechas de seu corpo sem sangrar. Teve dois filhos, chamados de Tamandaré e Ariconte, que se odiavam mortalmente.

Sumé então teria andado de costas até o mar, desaparecendo em seguida num voo sobre a Baía de Santos para nunca mais voltar. Não sem antes ter deixado na bica onde aparecera uma série de desenhos, com destaque para uma enorme pegada, fora dos tamanhos normais para um ser humano. Relatos posteriores dos jesuítas dão conta que o motivo da expulsão dele fora ter proibido a poligamia e o canibalismo, motivando a ira dos caciques.

A História por Trás da Lenda

Pesquisas mais recentes conseguiram traçar a história do misterioso homem que, após sua saída da Baixada Santista, teria chegado a Assunción, no Paraguay, e aos Incas, no Peru, tendo aberto o famoso Caminho do Peabiru (que ligava Santos ao Oceano Pacífico e foi utilizado pelos índios para trocas comerciais e depois em algumas bandeiras). Os incas da região do Peabiru cultivam lendas a respeito de Viracocha, que em suas aparições seria muito semelhante à Sumé, levando a crer que seriam então a mesma criatura.

Colonizadores portugueses levantaram a hipótese de Sumé ser o apóstolo São Tomé, que segundo a tradição católica, após presenciar a assunção de Maria, teria ido à Índia pregar o catolicismo. Sua passagem é descrita num texto do ano 200 denomidado "Atos de Tomé". Na Índia, teria participado da fundação de 8 igrejas na região de Paravoor Thaluk, no ano 52. Os portugueses acreditam que, após sua passagem na Ásia, rumou para a América, onde ensinou as benfeitorias aos índios paulistas e da região do Peabiru.

Com o advento do abastecimento de água moderno em Santos, a fonte foi caindo em desuso, até cair no abandono e ter sido infelizmente demolida em fins do século XIX para aproveitamento de suas pedras em lajes e calçadas na cidade. Apesar disto, não conseguimos encontrar outros registros ou maiores informações sobre a mesma, bem como qualquer resquício hoje no local. O mito ao redor das figuras de Sumé, Viracocha e São Tomé persiste repleto de mistérios e histórias na região por onde teria passado, representando um interessante relato da Mitologia Paulista. 

Por Thales Veiga.

Jahu: A Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sem Escalas

Filho de um cafeicultor, João Ribeiro de Barros nasceu na cidade paulista de Jaú em 1900. Desde cedo foi atraído pela aviação, tendo estudado nos Estados Unidos e obtido o brevê internacional nº 88 em 1923. Inspirado pela travessia dos portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral em 1922 - a primeira sobre o Atlântico Sul, em comemoração ao centenário da independência - começa a idealizar um novo raide, desta vez feito sem escalas.

As dificuldades da aviação no início da década de 1920 eram imensas. Apesar de ter realmente tido seus primeiros voos regulares cerca de 15 anos antes, os aviões ainda eram simples e pouquíssimo desenvolvidos. A Primeira Guerra Mundial trouxe uma sensível melhora principalmente nos sistemas de navegação e motorização, o que também permitiu a criação de algumas indústrias especializadas, como a Savoia-Marchetti na Itália em 1915 e a Boeing nos Estados Unidos em 1916. Eram muito comuns os hidroaviões, já que haviam pouquíssimos aeroportos disponíveis e as condições das pistas eram sofríveis, com solo de terra batida e sem qualquer tipo de drenagem. Com a utilização dos hidroaviões, podia-se não só pousar em qualquer lugar onde tenha mar, lago ou rio, mas também um pouso de emergência mais seguro em caso de alguma dificuldade mecânica ou falta de combustível.

Parte então de volta para os Estados Unidos, onde passa a estudar o assunto com seu amigo Gago Coutinho. Os dois preparam uma série de requisitos técnicos necessários para a realização da viagem e enviam à Savoia-Marchetti; entretanto, a fábrica, que ainda se recuperava dos efeitos da guerra, responde que não seria possível projetar um novo modelo de avião, mas poderia ceder um avião parado em seus hangares, o "Alcyone". A unidade, modelo S-55C, um dos mais modernos da época, fora utilizado pelo Conde Casagrande em tentativa anterior para a travessia do Atlântico Sul sem escalas. A viagem fracassou logo no começo, e o "Alcyone" foi então devolvido para o fabricante. Os dois aceitam, porém pedem a troca dos motores e flutuadores por outros mais próximos ao que julgavam ser ideal. Ainda na Itália, João impressionou os empregados da fábrica com sua habilidade em pilotar o pesadíssimo avião, inteiramente revestido de madeira naval. Para diminuir seu peso, até mesmo o equipamento de rádio foi suprimido, transformando o aparelho em um grande tanque de combustível. Ganhou então nova pintura, vermelha e preta, e novo nome: "Jahu", em homenagem à cidade natal de João. Nas laterais, foram pintados os dizeres "Vou Ali" e "Já Volto", além do novo nome da máquina e o novo prefixo: I-BAUQ.

João Ribeiro chama seu amigo, o mecânico Vasco Cinquini, e por este foi indicado o capitão Newton Braga. Para segundo piloto, lhe foi recomentado o tenente Arthur Cunha, aviador carioca recém formado. Em 13 de outubro de 1926, o "Jahú" e sua tripulação decolaram de Gênova, Itália, rumo a Gibraltar. Contudo, após 5 horas de voo, os motores apresentaram problemas, o que forçou a tripulação a pousar em Dénia, de onde seguiram para Alicante, Espanha. Imediatamente, as autoridades espanholas, desconhecendo a viagem, prenderam os aviadores, que só foram soltos algumas horas depois após a intervenção do diplomata brasileiro.

De volta ao avião, descobriram uma tentativa de sabotagem: uma mistura de terra, areia e sabão foi adicionada nos tanques de combustível. Com os reservatórios limpos dias depois, o "Jahu" seguiu viagem no dia 25, rumo às Ilhas Canárias, onde chegaram após 7 horas, enfrentando novamente problemas nos motores por falta de alimentação, solucionado no ar por Cinquini e Braga, que passaram a bombear combustível manualmente, em um esforço exaustivo que levaram os técnicos ao limite. Posteriormente, após 9 horas de voo, alcançaram Praia, em Cabo Verde, onde enfrentariam a fase mais grave do reide aéreo. 

Em meio aos preparativos para a decolagem para o grande teste, a viagem para o Brasil, o tenente Cunha exigiu que o comando do avião fosse repassado a ele e que a tripulação passasse a seguir suas ordens. Posteriormente, veio à tona de que o jornal A Pátria, do Rio de Janeiro, remuneraria Cunha caso o avião chegasse à capital sob seu comando, onde o jornal daria a notícia em primeira mão como um furo de reportagem. João foi forçado a desligar Cunha da equipe, e a enviar Braga de volta para a Itália para buscar uma solução definitiva para os problemas do motor. Ele e Cinquini ficaram então ilhados em Cabo Verde, já que o avião necessitava de mais de um piloto para voar.

Rumores correm nos jornais, que acompanhavam o caso com bastante atenção, de que Barros desistiria; o presidente Washington Luiz chegou a mandar-lhe um telegrama pedindo-lhe que desmontasse o avião e voltasse ao Brasil. Deprimido, após quatro acessos de malária e com o avião avariado, João consultou a sua mãe, Dona Margarida, que respondeu com um telegrama emocionado, onde pedia a continuidade da viagem. Juntou-se então à equipe o tenente João Negrão, da Força Pública Paulista, e iniciou-se a revisão do "Jahu", que havia ficado ancorado por meses. Durante a revista, foi descoberta uma peça de bronze solta no interior do motor, indicando nova tentativa de sabotagem.

Finalmente, em 28 de abril de 1927, após 12 horas de voo, voando a uma altitude de apenas 250 metros e com problemas no motor, o "Jahu" chega ao Brasil, pousando em Fernando de Noronha. Houve comemorações por todo o país, tendo em seguida o "Jahu" feito escalas nas cidades de Natal, Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Por todos os lugares onde passaram, foram recebidos festivamente, com direito a desfile em carro aberto e honras militares, como poderá ser visto no filme mais abaixo. Em agosto chegam à Santos, onde realizam a última etapa da viagem, rumo à Represa de Guarapiranga, em São Paulo capital, encerrando assim o raide.

Mapa da viagem, mostrando-se as diferentes paradas realizadas.

A inspeção do avião na Represa de Guarapiranga, no dia seguinte a sua chegada.

O Jahú nunca voaria outra vez: após a viagem, foi doado ao Museu Paulista, onde permaneceu até 1950, quando foi então transferido para o Parque do Ibirapuera. Após anos sem manutenção adequada, o hidroavião foi restaurado em 2007 e cedido ao Museu da TAM, em São Carlos, interior paulista, onde reside hoje, original em seus mínimos detalhes. 

João Ribeiro de Barros, planejando novo raide, adquiriu um novo avião, batizado de Margarida; porém, o mesmo foi confiscado pelos apoiadores de Vargas em 1930 para uso na revolução, e após isso destruído num acidente. Tanto João Ribeiro quanto João Negrão participaram da Revolução de 1932, lutando pelo lado dos constitucionalistas e tendo papel fundamental na aviação paulista, um dos temidos pontos de São Paulo na guerra. João Ribeiro viaja a pé pelo Vale do Paraíba até Taubaté, onde se alistou no Exército Constitucionalista, doando para a causa da revolução todo o ouro que possuia e as medalhas ganhas na travessia do Atlântico Sul. Após a guerra, é preso pelo governo Vargas acusado de publicar um jornal contrário ao governo e posto em liberdade logo em seguida dadas as falsas acusações, vindo a falecer em Jaú em 1947 vítima de complicações causadas pela malária adquirida durante o raide, 20 anos antes. Já João Negrão permaneceu nos quadros da Força Pública Paulista, aposentando-se como tenente e vindo a falecer em São Paulo capital em 1978; hoje, empresta seu nome para o Grupamento de Radiopatrulha Aérea João Negrão, que é responsável pelos aviões e helicópteros da polícia paulista, inclusive os famosos Águias.

O avião em seu estado atual, preservado na cidade de São Carlos.

João Negrão e João Ribeiro de Barros em São Paulo, num dos aviões da Força Pública.

Sem dúvida, estes quatro paulistas são alguns de nossos heróis, cumprindo seu objetivo após duas tentativas de sabotagem, uma de golpe, e inúmeros problemas mecânicos e pessoais, escrevendo seus nomes na eternidade das conquistas e façanhas humanas, onde o Homem busca sempre inovar e superar seus limites, desafiando até mesmo as forças da natureza que não lhe deu asas e voando cada vez mais longe.

Por Thales Veiga.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

O Solar da Marquesa

O Solar, em foto de @phillmr

[PT] O Solar da Marquesa de Santos foi outrora casa de Domitila de Castro Canto e Mello, amante e favorita do imperador Pedro I do Brasil e IV de Portugal. Hoje é um monumento histórico paulista e sede do Museu da Cidade de São Paulo. A construção data do século XVIII e seu primeiro piso ainda conserva paredes de taipa de pilão e pau-a-pique que foram tão comuns em São Paulo de Piratininga durante séculos enquanto sua fachada apresenta traços arquitetônicos típicos do século XIX.
É um dos mais antigos exemplos remanescentes de moradia típica paulista, tendo imensurável valor histórico e cultural.
O que pensam dessa construção e de sua antiga habitante?

[EN] The Mansion of the Marchioness of Santos was once the home of Domitila de Castro Canto e Mello, mistress and favourite of Emperor Pedro I of Brazil and IV of Portugal. Today it is a Paulista historical monument and home to the Museum of the City of São Paulo. The building dates from the 18th century and its first floor still retains cob walls that have been so common in São Paulo de Piratininga for centuries while its façade features typical 19th century architectural features.
The house is one of the oldest remnant examples of typical ancient Paulista housing and it has immeasurable historical and cultural value.

Lucas Pupile

A Bandeirantibus Venio: Procedo dos Bandeirantes

Quando os europeus chegaram ao território em que hoje se encontra São Paulo, existiam diversas nações indígenas já estabelecidas. Com a interação entre os europeus e esses outros povos uma cultura nova foi se formando aos poucos. Ela tinha elementos de ambos os continentes. Incorporava princípios e generalidades do Velho Mundo e alguns costumes dos povos aliados nativos da América. Esses hábitos locais ajudavam o europeu a se adaptar à realidade do novo continente. Uma base europeia com substrato indígena.

 «Apertando o Lombilho», do grande pintor paulista Almeida Júnior. 

Ao passo que os Paulistas permaneceram com a religião Cristã, incorporaram o tereré dos guaranis, os hábitos alimentares dos tupiniquins e dos marranos e desenvolveram um idioma único, casamento dos dois mundos, a Língua Geral Paulista, entre outros elementos. Essa cultura pode ser chamada tanto de paulista, quanto de caipira (e tem a cultura caiçara como um de seus subgêneros, pois os caiçaras são os caipiras do mar) e no processo de expansão de SP, ela foi levada pra uma grande extensão de terra que compreendia desde regiões ao sul do rio Uruguai até lugares à beira do Araguaia e ao sul do Amazonas.

Em resumo, nossos Bandeirantes, ao fundar cidades distantes, conduziram essa cultura única pela maior parte da América Portuguesa. Quando a Língua Geral Paulista foi banida pelo Marquês de Pombal, os paulistas dessas regiões passaram a falar português, mas essa fala ainda levava profundas marcas da extinta língua. Esse era o dialeto caipira, falado antigamente desde o litoral de SP, passando pelo planalto até as fronteiras da capitania de São Paulo. E mesmo onde esse falar perdeu força, como na capital, ele ainda deixou traços nos falares modernos. No restante do território, esses traços ainda existem, mesmo nas grandes cidades, como Campinas, Maringá, Campo Grande e outras.

Território da antiga capitania de São Paulo

Da mesma forma, a comida vive, seja nas metrópoles ou no interior. Um fenômeno interessante é que pratos como o leitão à pururuca, cuscuz caipira de legumes, pamonha, arroz tropeiro, bolinho caipira, vaca atolada, frango caipira, o furrundum, farofa de linguiça, fraldinha em panela de ferro, caipirinha, a paçoca de amendoim, o feijão tropeiro, a canjica com costelo de porco, o virado à paulista, afogado, bolinho de mandioca, rabada, o angu, pé-de-moleque, a cabidela miúda, quentão, farofa de içá, rosquinhas de pinga, o doce de bananinha e outros são conhecidos com o nome da culinária local (além de paulista e caipira), como «cozinha mineira», «cozinha goiana» entre outros. 

Na música, temos a moda de viola caipira, o sertanejo de raiz e o sertanejo moderno. Grandes nomes como Renato Teixeira, Tonico e Tinoco, Inezita Barroso, Almir Sater, Sérgio Reis, Victor e Leo, Paula Fernandes e outros fazem parte do legado civilizacional e cultural dos Paulistas. Entre as danças figuram o fandango, a catira/caterê, o cururu (ciranda de roda) e outras.

Nem o processo de cosmopolitização conseguiu apagar os traços ancestrais que os Bandeirantes deixaram. Mesmo na capital ainda podemos ver os pratos típicos, o jeito caipira de falar, o sertanejo e outros elementos, em maior ou menor grau. Há muito que ser reavivado, sim, mas a base cultural não foi perdida. E São Paulo, diante da crise de identidade por que passa, deve olhar pro seu próprio legado a fim de reavivar a própria cultura. É hora de olhar pro Centro-Oeste não como diferente de nós, mas como a região que conserva todos os hábitos que os nossos ancestrais cultivavam.

Nesses territórios estão 90 milhões de pessoas que têm a mesma origem cultural e que são distintas das outras nações do Brasil. Essa é a Nação Caipira. Esses são os Países Paulistas, a modelo dos «Països Catalanes» (Países Catalães). Esse tanto de gente compartilha a mesma história e formação e os indivíduos devem contribuir uns com os outros pro processo de independência de Brasília, aquela que nos escraviza. O Brasil não pode suportar tantas culturas dentro de si, pois a tendência é a eliminação daquelas que não estão adequadas à «cultura central», do Samba, Carnaval e tropicalismos estereotipados. Votar pra permanecer com o Brasil é ser a favor do genocídio cultural que tem ocorrido nessas terras desde sempre e cujas consequências podem ser vistas em boa parte de São Paulo. A maioria de nós não se enquadra no estereótipo de ser brasileiro e ao mesmo tempo que não temos acesso à cultura ancestral, somos muitas vezes desestimulados a aprender e conhecer sobre a cultura local. É hora de findar esse ciclo de destruição. Os antigos territórios paulistas têm povos com um laço eterno de amizade e que devem colaborar entre si pro progresso mútuo. Agora é tempo de despertar. 

Viva São Paulo! Viva o caipirismo! Viva a paulistude!

Material de apoio:

- JAPUR, Jamile. Cozinha Tradicional Paulista (1963)
- CANDIDO, Antonio. Os Parceiros do Rio Bonito (1964) [Disponível em: http://migre.me/vuHsm]
- MARTIUS, C. F. P. v.. Ethnographie und Sprachenkunde Amerika's zumal Brasilien (1867) [Disponível em: http://migre.me/vuHrY]
- Ora pois, uma língua bem brasileira! – Pesquisa Fapesp [Disponível em: http://migre.me/vuH5Q]

15 Curiosidades do Castelo Rá-Tim-Bum, O Castelo Mais Paulista de Todos

Considerado uma das maiores produções audiovisuais paulistas de todos os tempos, o Castelo Rá-Tim-Bum fez 22 anos em 2016. O programa, de carácter educativo, foi responsável pela maior audiência não só da TV Cultura, como também pela maior audiência na nossa história de algo nesse gênero.


A maquete do Castelo

Além da atração televisiva que todos já conhecemos, a sub-franquia do Castelo conta também com um álbum de músicas, livros e um filme. E aí vão algumas curiosidades:

1) Ao longo da série, foram usados 800 figurinos diferentes.

2) Na ideia original, o castelo seria apenas um dos cenários. Uma vila e uma escola estavam no projeto, mas não vingaram.

3) O nome seria Castelo do Doutor Victor ou Castelo Encantado, mas a Fiesp, patrona da atração, solicitou que o nome Rá-Tim-Bum fosse usado pra dar continuidade à famosa franquia de mesmo nome, iniciada em 1990.

4) O orçamento do Castelo foi de US$ 2,5 milhões, divididos meio a meio pela Fiesp e pela TV Cultura.

5) O Nino foi inspirado na Nina, personagem do programa Rá-Tim-Bum que morava com a boneca Careca num quarto com móveis gigantes.

6) Originalmente, a Cultura queria fazer Rá-Tim-Bum 2, mas a criatividade dos autores deu origem a uma ideia totalmente nova.

7) O castelo que aparece no espetáculo é na verdade uma maquete. Sua arquitetura foi inspirada no trabalho do catalão Antoni Gaudí, que projetou o Templo da Sagrada Família em Barcelona e o Grand Hotel de Nova Iorque (esse jamais construído).



A grande maquete

8) Nenhum objeto dos cenários foi comprado. Tudo aquilo que sempre desejamos ter foi feito do zero pela equipe.

9) A âncora patricinha Penélope foi inspirada na Penélope Charmosa e na Jeannie, de "Jeannie é um gênio”.

10) O ator Wagner Bello, intérprete do Etevaldo, morreu pouco antes de gravar o que seria sua última aparição no show. Em sua memória foi chamada uma amiga do ator, a atriz Siomara Schroder, que deu vida à Etecetera, que na história era irmã do ET.

11) Um episódio especial que foi exibido pela última vez há 20 anos está disponível no Youtube.

12) A cobra Celeste era interpretada por alguém do sexo masculino, Álvaro Petersen Jr. O ator foi o único homem a fazer teste pro papel e interpretou tão bem a cobra que acabou por impressionar todos no set.

13) A personagem Caipora foi concebida misturando-se um personagem do Folclore Paulista (Currupira/Curupira) e um do Folclore Brasileiro (Caipora), ambos primos provenientes da cultura nativa da América do Sul, mas seu gênero foi mudado pro feminino. CARACATAU!!



A famosa Caipora

14) A franquia Rá-Tim-Bum conta com o programa original, com o Castelo, com o Teatro Mágico Rá-Tim-Bum e com a Ilha Rá-Tim-Bum, programa começado em 2002, que sucedeu o Castelo e que também fez parte da infância de muitos de nós aqui na equipe (principalmente da minha).

15) Após três anos de exibição, o espetáculo chegou ao fim. Na época, crianças chegaram a enviar cartas com dinheiro à TV Cultura, na tentativa de evitar que a apresentação se encerasse.

Especial de Natal do item 11: https://www.youtube.com/watch?v=lJEAhhRsRIM